Nicole Dias
A importância de democratizar o cinema
O papel político e cultural do cinema dentro de uma sociedade
Entendemos que o cinema pode ser considerado democratizado a partir do momento que todos os cidadãos têm acesso a ele, e que os espaços físicos possuem as estruturas necessárias para atender todo tipo de público, incluindo suas necessidades de inclusão.
Além disso, o custo do ingresso deve ser justo e acessível. Infelizmente, não é o caso do cinema popular que conhecemos hoje.
Muitos diriam que minhas colocações acima são no mínimo ‘óbvias’, e eu digo que, às vezes, precisamos defender o óbvio, especialmente quando ele ainda não é tratado como tal.
A importância do acesso ao cinema
O cinema nacional, ao contrário do que muitos pensam, não é composto apenas por comédias, de fato é um dos gêneros que mais possuem investimentos e patrocinadores dentro do nosso país e consequentemente visibilidade dentro das grandes redes de cinema.
Isso faz com que, na maioria das vezes, a opção nacional encontrada nos cinemas de rede seja um filme de comédia.
No entanto, o cinema nacional também traz consigo obras que marcam gerações, que lutaram pelo seu espaço e sua divulgação e possuem filmes que são considerados instrumentos de conscientização de classe, além de proporcionar entretenimento à sociedade.
Democratizar o cinema deve ser visto como uma luta popular. Dentro dos filmes, discussões fundamentais são pontuadas e conscientizadas, política é desenvolvida e pensamentos são formados.
Não somente as pessoas, mas a cultura também sofre quando não existe acesso a ela, isso faz com que a criatividade dos pensamentos se percam ou nem ao mesmo existam, deixando a sociedade escassa de repertório.
A falta de acesso e a censura ao cinema no Brasil
Apenas 57% da população brasileira tem acesso a salas de cinemas no seu próprio município. É o que mostra o Sistema de Informações e Indicadores Culturais (SIIC), uma pesquisa realizada pelo IBGE que reúne dados sobre acesso à cultura e mercado de trabalho no setor cultural.
a sexta edição do SIIC foi divulgada no início de dezembro e traz dados coletados entre 2011 e 2022.
Um dos principais fatores que barram o acesso do cinema é a sua falta de investimento. Não somente o cinema sofre com essa falta de política pública, mas também outras áreas da cultura.
Essa política pública anti cultura resulta na falta de entendimento do cinema como cultura popular e consequentemente na falta de interesse por parte dos cidadãos, que veem o mesmo como um desejo elitizado, pois o ato de ir ao cinema deixou de ser acessível há muito tempo, por ter um preço que muitos não podem custear.
Um caso de censura que enfrentamos em um passado não tão distante foi com o filme “Medida Provisória (2020)” de Lázaro Ramos, o filme foi inspirado na peça "Namíbia, Não", de Aldri Anunciação.
A obra retrata uma medida provisória mediada pelo governo Brasileiro, usando a justificativa de seu passado escravocrata e reparação histórica para enviar todos os negros, ou então ‘melanina acentuada’ (como são chamados no fime) para países da África.
O filme passou por um processo que foi conhecido e descrito pelo próprio Lázaro Ramos como Censura Burocrática, pois a obra demorou mais de um ano para ser analisada e então distribuída para as salas de cinema.
Destaco que enquanto esse feito acontecia aqui no Brasil, o filme chegava no mundo inteiro, passava por diversos festivais internacionais e ainda alcançava prêmios, como por exemplo o de Melhor Roteiro, no Indie Memphis Film Festival, antes mesmo de passar em seu país de origem, causando revolta em todos aqueles que presenciavam tal fato, onde os estrangeiros estavam tendo acesso a uma obra brasileira antes dos próprios brasileiros.
Citei o filme de Lázaro Ramos pois penso que este é um grande exemplo de como o poder público tem o poder de barrar o cinema e, consequentemente, seus pensamentos críticos.
Há esperança para o cinema
Hoje, na cidade de São Paulo, podemos reconhecer algumas iniciativas como o Circuito Spcine, que promove projetos de sala de cinema em mais de 20 espaços diferentes distribuídos pela cidade.
Esses espaços contam com festivais e curadorias próprias que entregam diversos tipos de filmes para todo o tipo de público, além de ser fisicamente e monetariamente acessível. Essa iniciativa mostra que é possível chegarmos na democratização de espaços públicos culturais.
Portanto, é essencial que políticas públicas sejam desenvolvidas e implementadas para garantir o acesso ao cinema como um direito cultural de todos os brasileiros. Apenas com o comprometimento coletivo e a promoção de iniciativas inclusivas será possível transformar o cinema em um instrumento de educação, conscientização e entretenimento acessível a toda a população.



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